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Rating History

Alpha
Alpha (2018)
21 months ago via Rotten Tomatoes
½

Quando falamos de aventuras pré-históricas não existem muitos exemplos para dar no reino cinematográfico. O que me vem de imediato à cabeça são filmes como Ice Age (2002) ou 10.000 BC (2008), e por particular simpatia que tenha pelo filme de animação, a barra não está muito elevada. Alpha, realizado por Albert Hughes, não se destaca muito dos exemplos anteriores, embora ofereça um espetáculo visual que não vai deixar ninguém indiferente.

Mas comecemos pela história, escrita pelo estreante argumentista Daniele Sebastian Wiedenhaupt, situada há 20.000 anos atrás na Europa. O protagonista é um jovem caçador chamado Keda (Kodi Smit-McPhee), que após ter sido dado como morto longe de casa pela sua tribo, procura sobreviver com a ajuda de um amigo improvável: um lobo. Com o tenebroso inverno a aproximar-se, não se adivinha uma jornada fácil de regresso à sua família.

The Book of Eli (2010) tinha sido o último trabalho do realizador (em parceria com o seu irmão, Allen Hughes), o que me deixou algo entusiasmado para ver Alpha. Só que à medida que ia constatando a falta de punho no desenvolvimento do enredo, esse entusiasmo foi-se desvanecendo. Certo, as condições atmosféricas drásticas, a sede, a fome e os ferimentos de Keda não devem ser menorizados, mas o filme nunca consegue conectar com as emoções da mesma forma que cativa o olhar.

Isto porque além da personagem pecar em desenvolvimento, o próprio filme recusa-se a sair fora da caixa e a criar conflitos mais densos. O resultado é uma narrativa direta e apática que tem a sorte de puder contar com uma direção de fotografia gloriosa por parte de Martin Gschlacht. Mais versátil em dramas, o austríaco aproveita a oportunidade para expandir o seu trabalho e (com a ajuda de efeitos especiais) embelezar o grande ecrã com vastas planícies, montanhas e céus estrelados. A observação dos diferentes elementos é frequentemente o aspeto mais positivo de Alpha.

Quanto ao chamariz do filme, a relação entre o rapaz e o lobo, esta não começa de forma muito fundamentada, mas é de forma geral apreciável e torna-se até cativante em alguns momentos. Numa das cenas de maior tensão, Keda cai numa plataforma de gelo e mergulha em águas hipotérmicas. A aflição do rapaz e do lobo é notável, enquanto a câmara capta um plano inspirado onde a camada de gelo separa o ecrã em duas metades. Outra cena interessante decorre quando Keda atira um pau ao lobo com o intuito de o mandar embora, mas o lobo simplesmente o abocanha e devolve ao "dono".

Sobretudo, Alpha acusa a inexperiência do seu argumentista, que constrói uma história ténue e repetitiva, ainda que transmita valores importantes como a perseverança e a compaixão. Apesar de a narrativa ser modesta, Hughes consegue extrair boas atuações, principalmente tendo em conta que os atores tiveram de articular uma linguagem Cro-Magnon inventada, com cerca de 1500 palavras. Um pormenor louvável.

5,5/10

The Invitation
23 months ago via Rotten Tomatoes

É para promover pequenas gemas como The Invitation que aprecio tanto este trabalho de análise crítica. Com pouco marketing por trás, o filme da realizadora Karyn Kusama deu que falar em vários festivais de cinema por todo o mundo, mas não atingiu nem de perto o público que merecia. Este é o meu pequeno incentivo para que mais pessoas sejam expostas a este thriller que é tão intenso como calculista.

Will (Logan Marshall-Green) e a sua namorada, Kira (Emayatzy Corinealdi), recebem um convite para um jantar. Os anfitriões são Eden (Tammy Blanchard), a ex-mulher de Will, com quem partilha uma tragédia não resolvida, e o seu novo namorado, David (Michiel Huisman). Depois de ter passado 2 anos no México, Eden organizou o jantar para restabelecer a ligação com velhos amigos. Vários casais são convidados. Mas rapidamente Will começa a perceber que há algo de errado. Porque será que David tentou trancar a porta principal? E quem são os dois estranhos convidados (Lindsay Burdge e John Lynch)? Será tudo delírio de Will?

Com um ritmo deliberadamente - às vezes demasiado - lento, The Invitation escala entre a cordialidade e a paranoia, mantendo uma ambiguidade mais ou menos constante. Mesmo que se preveja o desfecho da narrativa, tal como no thriller psicológico Rosemary's Baby (1968), a jornada mantém o seu interesse. Orientado essencialmente pelo diálogo, a dupla de argumentistas Phil Hay e Matt Manfredi (envolvidos nos filmes Ride Along (2014 -)) alcançam um ponto alto nas suas carreiras ao criarem um enredo maduro e magnético sobre as várias formas de lidar com o sofrimento, a influência dos cultos e o cinismo da nossa era.

O elenco pouco reconhecido sublinha a hipótese de que nós, audiência, podíamos perfeitamente estar naquela sala de convívio, incomodados com a peculiaridade das interações. Um dos constrangidos é naturalmente Will, interpretado com subtileza por Logan Marshall-Green, que me fez lembrar o ator Tom Hardy, principalmente pelo seu aspeto. Vemos o filme através dos seus olhos e é a sua performance sentida que realça a ambiguidade da história. Sendo um filme concentrado praticamente num só espaço, todos os atores têm a quota-parte de oportunidades (crédito também de Kusama, que fez um ótimo trabalho a direcionar os seus atores), mas ele é o grande destaque.

Obtemos o contexto necessário do passado traumático do casal através das recordações de Will, quando a imagem do diretor de fotografia Bobby Shore adquire uma qualidade onírica bem apreciada. A montagem é também ela corretamente executada, mas é a composição musical de Theodore Shapiro que surpreende, principalmente por não ser usual trabalhar com composições do género, onde os instrumentos de cordas estão em primazia e enriquecem a atmosfera.

Depois de ter proporcionado algum entretenimento com o filme Jennifer's Body (2009), Karyn Kusama conseguiu o meu entusiasmo para o seu próximo projeto. The Invitation não tem uma premissa revolucionária, mas tem algo que escapa a muitos filmes: memorabilidade. E quando pensava que os arrepios não podiam ser ampliados e o queixo não voltava a cair, eis que surge a última imagem.

O convite está feito, recomendo que o aceitem.

8,5/10

Pi
Pi (1998)
23 months ago via Rotten Tomatoes

Depois de uma série de curtas-metragens, Darren Aronofsky debruçou finalmente a sua mente fervorosa numa longa-metragem, enquanto realizador e argumentista. Com estreia em 1998, Pi apresentou ao mundo um homem que viria a marcar pela sua singularidade e originalidade. Com um orçamento restrito, o filme beneficia de uma escrita repleta de ideias ambiciosas, aliadas a uma competência técnica acima da média, que resulta num estudo de personagem injetado com cafeína e intriga.

Pi pode ser interpretado como uma letra do alfabeto grego, ou ainda como um símbolo matemático, mas o filme é infinitamente mais interessante. A história é sobre um matemático paranóico chamado Maximillian Cohen (Sean Gullette). Max vive barricado no seu apartamento sobrelotado de equipamentos informáticos e fechado a três correntes. Sem gosto pelo contacto humano, dedicasse a encontrar uma correlação entre o número pi e o mercado acionista. As suas pesquisas levam-no a um erro feliz: 216 dígitos, que, mais tarde, por intermédio de um judeu numerologista (Ben Shenkman), descobre que podem ser a chave para o verdadeiro nome de Deus.

É uma premissa ortodoxa e só o facto de misturar matemática com teologia promove uma expectável carga subjetiva. Mas como tudo isto não chega para Aronofsky, o protagonista não pode ser um génio matemático em vão. Fruto da sua rebeldia na juventude, Max sofre de dor de cabeça crónica e convulsões frequentes, que o levam rapidamente à insanidade e a deitar sangue pelo nariz.

"A vida é mais do que matemática!", exclama Sol Robeson, o seu antigo professor, ao perceber que Max está obcecado pelo significado dos 216 dígitos. Tal como ele, também o espetador fica envolvido num enredo imprevisível e misterioso, que de modo geral é bastante aliciante, salvo breves momentos onde pode ser aborrecido. Mas o mais fascinante sobre o desenrolar da história é o crescendo de demência à medida que Max se aproxima dos 216 dígitos, como se a proximidade com Deus, a ansiosa resposta à questão: "Deus existe?", fosse um fardo intolerável para a mente humana.

A ancorar a densidade temática estão ótimas performances, principalmente Gullette, que consegue uma das melhores atuações da sua carreira, se não mesmo a melhor. Ele reflete o resultado de estar tempo sem fim confinado a um cubículo, envolto em ideias e experiências. É autêntico e tão intenso quanto a fotografia a preto e branco de Matthew Libatique, cujo alto contraste não permite muitos cinzentos na imagem. O trabalho de câmara é também interessante, ainda que demasiado experimental. Na sua essência, cada movimento da câmara é o reflexo do estado mental da personagem, uma forma de o experienciarmos.

Por conseguinte, Pi oferece uma experiência surrealista, ainda que insista em estar assente na lógica. É um filme altamente cerebral que tanto oferece explicações e ideias matemáticas de forma cativante, como imagens aterradoras (sangue, cérebros, etc) fruto das alucinações do protagonista. Ao explorar conceitos desafiantes, Aronofsky deu-nos um exemplo notável do que podíamos esperar da sua carreira cinematográfica, uma mente distinta num meio formatado.

8/10

Rosemary's Baby
23 months ago via Rotten Tomatoes

Depois de uma série de projetos no estrangeiro, entre os quais destaco o filme Repulsion(1965), o realizador e argumentista polaco Roman Polanski marca a sua primeira produção americana com o filme de terror psicológico Rosemary's Baby. Adaptado fielmente do romance de terror do autor Ira Levin, o filme catapultou o realizador para o sucesso comercial, conquistando uma reputação na industria cinematográfica que viria a confirmar com o título Chinatown (1974) e mais tarde com The Pianist (2002).

A história começa com o casal Rosemary e Guy Woodhouse (Mia Farrow e John Cassavetes) a chegar ao seu novo apartamento em Manhattan. Os relatos do que se passou naquele apartamento começam a inquietar Rosemary, que cedo começa a experienciar coisas estranhas e desagradáveis. Guy fica encantado com os bizarros e metediços vizinhos, Roman e Minnie Castevet (Sidney Blackmer e Ruth Gordon). Mas é a gravidez de Rosemary que lhes chama realmente a atenção. Minnie começa a cuidar da futura mãe e dá-lhe uma bebida estranha para ajudar na gravidez. Rosemary, cada vez mais debilitada, entra em paranoia pela segurança do seu feto.

Apesar da narrativa no seu núcleo contar uma história de terror, Rosemary's Baby demarca-se pelos elementos dramáticos que se articulam com nuances de humor negro. O enredo envolve uma multiplicidade de temáticas: a submissão feminina, o poder patriarca, a influência da educação conservadora cristã no subconsciente, a ambição desmedida e o medo de perder o controlo da própria vida. Polanski dramatiza todas estas vertentes, mas o que as torna sinistramente envolventes é o facto do filme estar fundamentado na realidade. Por outras palavras, esta peça de ficção podia perfeitamente acontecer.

A auxiliar a autenticidade da obra estão as tremendas prestações dos atores em geral. Destaco desde já o papel de Minnie, que rendeu o Óscar de melhor atriz secundária a Ruth Gordon em 1969. A sua interpretação caricata fez parecer que era incapaz de magoar uma mosca. Cassavetes, que interpreta um ator egocêntrico, também é digno de nota, mas o filme pertence a Mia Farrow. No papel de Rosemary, a atriz representa um exemplo exímio de casting, especialmente no género do terror, ao vender a sua transformação de boneca cintilante para uma débil vítima. O filme evoluí com a personagem e, ainda que seja algo previsível, é um prazer acompanhar a sua jornada.

Num plano mais técnico, a direção de fotografia de William A. Fraker envolve imagens um pouco distorcidas e sequências longas que dão espaço aos atores para brilhar. Além da qualidade no trabalho de câmara, também o compositor Krzysztof Komeda utiliza a música para evocar emoções cirúrgicas. O filme sofre, contudo, de alguma falta de ritmo, podendo ser retirados facilmente 10 a 15 minutos de modo a otimizar a experiência, que já é de altíssima qualidade.

Depois da surpresa do realizador George A. Romero com o filme Night of the Living Dead em 1968, nada fazia prever mais um clássico do género nesse mesmo ano. Atualmente, em 2018, o filme comemora 50 anos desde a sua estreia, e continuará certamente a ser analisado e admirado pelos fãs da sétima arte. Rosemary's Baby é o esquema mais macabro que Polanski conseguiu engendrar.

9/10

Thoroughbreds
Thoroughbreds (2018)
23 months ago via Rotten Tomatoes
½

Quando ouço alguém dizer que antigamente é que havia cinema de qualidade assumo que tem andado um pouco desatento ultimamente. É verdade, os grandes clássicos estão no passado, mas apenas porque, além do seu mérito, têm o fator tempo a consolidá-los. Thoroughbreds não vai ser considerado um modelo do género, mas marca a estreia de um realizador e argumentista que se junta a uma nova geração de pensadores do cinema que prometem revolucionar a sétima arte. O seu nome é Cory Finley e a sua contribuição nas artes começou enquanto dramaturgo, conhecimentos que serviram de alicerces para este projeto.

A história diz respeito a duas raparigas com pólos emocionais bastante distintos. Outrora amigas, Lily (Anya Taylor-Joy) tem facilidade em demonstrar emoções, já Amanda (Olivia Cooke) afirma não sentir nada. Os seus caminhos voltam a cruzar-se quando Amanda decide por término ao seu cavalo doente, de forma grotesca. Com um passado conturbado e múltiplas doenças psicológicas diagnosticadas, a mãe de Amanda recorre a Lily para ser a sua tutora. As primeiras interações não correm exatamente como planeado, mas o terrível padrasto de Lily faz com que a relação entre ambas fortaleça, ao ponto de engendrarem um esquema macabro contra ele.

Depois de Psycho (1960) do realizador Alfred Hitchcock e de American Psycho (2000) da realizadora Mary Harron demonstrarem eficientemente psicopatas no grande ecrã, para não falar dos inúmeros slashers entre as estreias dos dois filmes, Finley examina agora a problemática da psicose na geração milenar. É um filme sobre empatia, honestidade e o quão fácil é perdermos essas qualidades e tornar-nos frios e apáticos, quase por capricho.

O narcisismo é palpável na forma como ambas as atrizes contracenam. Taylor-Joy surpreende-me a cada projeto em que participa, utilizando aqui as mesmas qualidades que lhe valeram uma excelente performance em The Witch (2014): inocência, com um toque de mistério. Não menos impressionante está Olivia Cooke, principalmente na forma como entrega o diálogo: seco, sem papas na língua. Cory Finley centra o filme na dinâmica entre as duas atrizes e colhe os frutos do seu trabalho.

Não menos loucos estão também os aspetos técnicos do filme. O diretor de fotografia Lyle Vincent, habituado ao género de terror e a thrillers, alterna a imagem entre planos organizados e deturpados, refletindo o interior instável das personagens. A música esquizofrénica do compositor Erik Friedlander vem apenas ampliar as vibrações doentias que o filme transmite, como se devêssemos esperar o inesperado, algo que me fez lembrar Get Out (2017).

A narrativa, apesar de simples, está bem explorada. Ainda que lute em nos fazer simpatizar com as personagens, são personalidades fáceis de diagnosticar nos jovens milenares, munidos da crença de que têm o direito a tudo simplesmente porque existem. Cory Finley pode não ter analisado ao pormenor esta problemática, mas fá-lo de forma multifacetada o suficiente para que o sumo do filme valha a pena. Acabei de apontar o seu nome, na certeza de que vai dar cartas no cinema, junto de diretores como Trey Edward Shults e Jordan Peele.

7,8/10